SALDANHA E A MÁQUINA DO TEMPO

fevereiro 25, 2009

Saldanha achava que a tecnologia de sua civilização não era avançada o suficiente. Ele temia não poder comprar um carro voador antes de completar cinqüenta anos e isso poderia atrapalhar crucialmente os seus planos.

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Aconteceu que em seu quadragésimo aniversário, Saldanha entrou em desespero, pensou em como seria se seus anseios jamais se completassem. Foi então que ele correu para o porão e, usando tudo o que pôde encontrar, construiu uma máquina do tempo.

Sua idéia era muito simples. Iria comprar uma mochila, pôr o máximo de quinquilharias que a mochila pudesse comportar, entrar na máquina do tempo e, no futuro, venderia todas aquelas quinquilharias como antigüidades e ficar rico em uma época em que os carros, de fato, voassem.

E foi o que ele fez. Porém ao chegar no futuro, Saldanha foi tomado de horror e espanto ao ver que a moda em todos aqueles anos tornara-se algo de horrível mal-gosto. As pessoas não mais usavam as roupas em seus corpos, mas sim suspensas a vários metros por armações de arame.

O que um observador desavisado veria era um bando de pessoas nuas. Por tal razão, manter a cabeça inclinada menos de 45 graus não só era indelicado como também ilegal. Saldanha acabou por ser preso em virtude de sua completa ignorância do código penal daquele tempo.

As prisões naquela inusitada realidade futurística não eram bem o que Saldanha esperava. Eram lugares bonitos, bem arborizados com celas decoradas pelos melhores designers de interiores do mercado e com refeições fartas assinadas por chefs renomados de todo o mundo.

Porém o fato que tornava a vida dentro delas um verdadeiro inferno era que, não importa o que se fizesse lá dentro, tudo deveria ser interrompido de quinze em quinze minutos para alongamentos e exercícios laborais diversos.

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Tudo fazia sentido, afinal estavam em um mundo em que as pessoas passavam todo o tempo em que estavam acordadas com o pescoço erguido a quarenta e cinco graus ou mais, não era de se espantar que os fisioterapeutas tivessem uma posição um tanto quanto privilegiada.

De fato os fisioterapeutas eram a classe mais importante de todas, e o mais hábil, mais sábio e mais íntimo com os truques de ioiô era aquele eleito por todos para governar toda a raça humana. Tal indivíduo receberia o título de “O Grande Fisioterapeuta.”

O Grande Fisioterapeuta tinha várias atribuições, entre elas julgar os casos mais extremos e polêmicos da justiça da nação, como crimes hediondos, estupros de celebridades do tricô e abaixamentos de cabeça. Sendo assim, seria ele o encarregado de ministrar o julgamento do pobre Saldanha.

O grande dia havia chegado. Saldanha foi massacrado publicamente e as defesas elaboradas por seu advogado causavam riso a todos no tribunal. Tudo indicava que o seu destino seria alongar-se até a morte com uma excelente postura lombar.

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Saldanha na certeza de que sua condenação era certa, não hesitou a acusar a todos, a toda humanidade de ter se perdido em seus valores. Suspendendo as suas roupas aos céus não estariam as pessoas escondendo-se umas às outras? Não estariam elas fugindo a uma instância aonde seriam julgadas apenas por suas idéias e não pela formosura de seus corpos? Aonde estaria a lógica naquilo tudo? E a que ponto havia chegado o homem que submetera-se a adorar falsos doutores que nem sequer eram médicos?

Porém foi a última proposição de Saldanha que, de fato, mudou para sempre o destino da humanidade. Ele disse, “não seria digna a coragem de olhar para o próximo e se perguntar ‘estaria ele em melhor forma que eu?'”

Saldanha escapou com vida graças à grande comoção pública que causara. Juntou suas coisas e partiu de volta a seu tempo. Porém mal sabia ele que havia condenado a todos à extinção ao elevar os Educadores-Físicos à classe suprema.


NICOLAU E SUA GRANDE BOCA

fevereiro 23, 2009

Nicolau, sentindo que sua morte estava próxima, decidiu cavar seu próprio túmulo. Ele escolheu um local bem bonito e florido e começou a cavar. Após alguns minutos, sua pá bateu em algo de consistência estranha, não pareciam terra, e pedra tampouco. Ele retirou um pouco mais de terra e percebeu que era sua prima Edileuza.

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A garota segurava um pacote de chicletes por atacado e repetia a frase “eu preciso ver a sua documentação” continuamente.

O rapaz deu um tapa na moça para que ela recobrasse a consciência. Edileuza olhou para ele e lhe deu um forte abraço fraternal.

“primo!” Disse a garota. Ela explicou que estava procurando uma de suas saias favoritas e se o rapaz não a tinha visto por aí.

Nicolau de repente percebeu que estava vestindo a tal saia mas que também não vestia nada por baixo. Ele achou bastante estranho. Não tinha o hábito de transvestir-se e nem se lembrava de ter trocado de roupa nos últimos dois meses.

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Foi então que resolveu entregá-la a  Edileuza, cobrindo logo em seguida as suas vergonhas com as mãos.

Como em um passe de mágica, Edileuza transformou-se em um gênio, não o tipo que formula soluções matemáticas para os fenômenos da natureza, mas sim uma daquelas criaturas mitológicas que concede desejos.

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“você optou por devolver algo que não o pertencia, mesmo que para isso, precisasse se submeter à humilhação de se estar nú em público. Em virtude de tamanha demonstração de nobreza e honestidade, hei de lhe conceder três desejos”

Nicolau, estupefato com tamanha originalidade da interface entre seres humanos e gênios, mandou parabenizar o departamento de marketing que criara tal mística criatura. Fato este que, para seu pesar, foi confundido com o primeiro desejo.

Os colaboradores do departamento de marketing da Genius Inc. jamais se sentiram tão agradecidos.

Nicolau, no entanto, ao sentir-se ludibriado por tal situação, exigiu falar com o gerente. E foi quando o segundo de seus desejos foi indevidamente gasto.

O rapaz que era extremamente calmo, já estava tendo um colapso nervoso com a sensação de ter sido logrado não apenas uma vez, mas duas.

Nicolau temeu que tal breve incidente pudesse vir a se tornar uma piada de internet, circulando por décadas através de mensagens de e-mail de funcionários entediados de diferentes empresas. Tamanho foi o desagrado que tal pensamento lhe trouxe à mente que ele resolveu que nada diria ao gênio até que tivesse mentalmente pensado no melhor pedido possível.

O gênio criou magicamente uma cadeira e nela se sentou.

Tal simples ato deixou-lhe claro que nada no mundo o deixaria mais contente que ser dotado da capacidade de criar cadeiras com a força do pensamento. Nicolau elaborou o pedido e fora satisfatoriamente atendido.

O rapaz se transformou, não só em um dos maiores produtores de cadeiras do leste europeu como também tornou-se renomado por manter a indústria de cadeiras com o menor número de funcionários que se tinha notícia.

Há rumores que até hoje o fantasma de Nicolau assombra os corredores do lúgubre complexo industrial. Apesar do próprio empresário permanecer vivo e atuante no mercado.


DOS OVOS AOS OVOS

fevereiro 20, 2009

Meia dúzia de ovos são suficientes para alguém querer parar de comê-los crus. Porém Teixeira pretendia quebrar esse récorde nem que morresse tentando. Bom talvez por ele não acreditar que alguém pudesse realmente morrer por ingestão exagerada de ovos crus. Infelizmente nosso herói estava equivocado com relação à sua crença.

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No entanto foi morrendo de overdose de ovos crús que Teixeira descobriu uma particularidade estranha sobre si mesmo: ao contrário das pessoas normais, Teixeira tinha 3 vidas e 2 “continues”.

Tal descoberta o deu um novo sentido na vida ao invés de simplesmente comer ovos crús para entrar no Guinnes Book of Records, ele resolveu que iria combater o crime.

Como não se pode combater o crime com seus super-poderes sem um devido traje colante de cores vívidas, a primeira atitude de teixeira após guardar os ovos na geladeira foi a de procurar um bom alfaiate.

Porém o melhor alfaiate de Jesúpolis, GO decidiu resolver seus problemas com cobranças morando em uma caverna cheia de armadilhas fatais. Muitos dos corpos de cobradores, agiotas e até carteiros ainda permaneciam na entrada da caverna, apodrecendo e servindo de comida aos urubus. Tal desagradabilíssima constatação serviu como presságio de que talvez entrar ali não seria a melhor das idéias qeu Teixeira já tivera.

O rapaz viu-se então com a tarefa de costurar seu próprio traje de paladino da justiça. Mas como tinha um avançado estágio de Mal de Parkinson, costurou acidentalmente a si próprio em um caminhão em movimento.

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Sem poder se mover, Teixeira viajou para todos os cantos do país sem ter sido notado pelo motorista que era muito velho e praticamente senil. Tal experiência fez com que ele aprendesse todo o ritmo e toda a ginga do brasileiro até que um dia o caminhão capotou matando ambos, o caminhoneiro e Teixeira.

Como Teixeira ainda tinha uma vida e dois continues, resolveu utilizar seus novos conhecimentos para fundar o primeiro instituto da brasilidade da américa latina. Qualquer um que se matriculasse poderia se tornar um verdadeiro ás da malandragem cheio de suingue e jeitinho brasileiro, por um preço módico.

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O problema de uma instituição dessa natureza é que praticamente todos os alunos estudavam com bolsas de estudos conseguidas na base da malandragem, o que invariavelmente acabou levando o instituto à falência.

Após ter todos os seus anseios frustrados pelas mazelas da vida prática, Teixeira entrou em depressão, mas acabou por superar aprendendo a ver toda a beleza presente nas pequenas coisas da vida, como as flores e o sorriso de uma criança, Contudo, em uma bela tarde de verão, Teixeira acabou sendo vitimado por uma chuva de meteoros, seis, pra ser exato, o que deixou com apenas uma vida.
Teixeira acabou por deprimir-se de novo com a perspectiva de voltar a ser nada além de uma pessoa comum e acabou por tirar a própria vida com outra dose letal de ovos crus.


DOUGLAS – O EMPALADOR

fevereiro 19, 2009

era uma fila muito grande. Uma pessoa precisaria nascer nela e manter excelentes hábitos de saúde, higiente e alimentação para viver tempo o suficiente para chegar até a metade. Porém Douglas – o Empalador, resolveu tentar.

Não era pra menos, ele tinha que pagar suas contas no guichê, afinal, seu cartão de crédito já estava atrasado e ele não aguentava mais pagar juros.

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Em meados do quadragésimo quinto ano na fila, Douglas – o empalador, conheceu Silvinha, que estava lá pois queria o refil do seu copo de refrigerante. Silvinha era uma moça muito simpática, teria dito a mãe de Douglas – o empalador, porém sua tia mais velha provavelmente não concordaria, dizendo que ela não passava de uma biscatezinha de segunda, contudo, Douglas – o Empalador pensou apenas que jogar conversa fora com Silvinha poderia lhe render alguma distração.

O que Douglas – o Empalador não sabia, era que Silvinha sempre recebia estranhos com golpes de kungfu, seguidos por um pedido de autógrafo (caso o estranho em questão fosse famoso) e, por fim, um caloroso abraço com ambos usando escafandros de primeira qualidade. Silvinha já vestia o seu pois havia conhecido outra pessoa poucos minutos atrás, uma imigrante russa chamada Kanoko.

Após o rígido protocolo de apresentação de Silvinha, Douglas – o Empalador, se apresentou e ambos conversaram por muitas horas sobre assuntos variados, com excessão do penúltimo, que de variado não tinha nada. Ele acabou gostando da garota e resolveu pedi-la em casamento.

Assustada com o súbito e inesperado convite, Silvinha pediu-lhe um tempo para pensar e fazer os cálculos necessários.

Ela calculou por horas e horas e chegou à conclusão que engravidaria no terceiro ano de casamento, brigaria com ele por causa da cor das cortinas no quarto e terminariam o relacionamento tragicamente no quinto com uma sangrenta luta de espadas. Não eram bons números.

Mediante tais resultados a garota viu-se forçada a dizer não.

Douglas – o Empalador, no entanto, jamais ouvira não como resposta de uma mulher caucaziana de estatura média e aproximadamente 50 quilos, por isso compôs uma extensa ópera de trinta atos manifestando sua inconformidade.

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A ópera fora um espetáculo entre público e crítica e acabou tornando Douglas – o Empalador, uma celebridade internacional. A fortuna, porém, não foi suficiente para acalmar a dor de seu coração machucado, por isso Douglas – o Empalador resolveu que deveria enfiar a cabeça no trabalho e nas obrigações ao invés de se lançar a tais intensas emoções.

Sua carreira tinha tudo para alcançar seu auge, porém o fato de que Douglas – o Empalador não poderia deixar o seu lugar na fila para fazer turnês e divulgar seu trabalho, fez com que ele caísse no esquecimento.

Aos oitenta e nove anos de fila, Douglas – o Empalador foi finalmente atendido no guichê 2 quando morreu de tristeza e desgosto ao lembrar-se de que havia esquecido o dinheiro em casa.


SERRAGEM DE PRIMEIRA

fevereiro 19, 2009

Ainda que Rudolf cozinhasse que é uma beleza, o fato dele haver assassinado vinte seis bebês antes de atingir seus dezoito anos de idade costumava perturbar as pessoas ao seu redor. Uma delas era Mohamed, seu contador.
Embora Rudolf não realizasse nenhum tipo de atividade que requisesse o auxílio de um profissional da contabilidade, ele achava a idéia um estouro e portanto pagava um vasto salário para que Mohamed o acompanhasse pra cima e pra baixo o tempo todo.

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Mohamed imaginava que de uma hora pra outra, Rudolf poderia retirar-lhe as vísceras e as usasse para fazer serragem de primeira qualidade. Ele acreditava de fato que suas vísceras fossem o melhor tipo possível de matéria prima para a serragem e por essa razão participava do fórum http://www.serragemhumana.com assiduamente, tendo sido inclusive chamado para proferir várias palestras sobre o assunto.

Um dia Mohamed acordou com uma imensa vontade de comer sanduíche de perú, porém na ausência de tal ave ao alcance da visão, ele decidiu usar a si mesmo como ingrediente principal de sua receita. Como tal ação provavelmente mudaria o rumo da dinâmica da dupla, resolveu então acordar seu mestre e contar-lhe tudo a respeito. Rudolf, que não gostava de ser acordado no meio da noite, pediu que Mohamed batesse em si mesmo para que ele aprendesse a lição alegando que nesta nova fase de sua vida, não deveria usar de violência.

Mohamed ficou perplexo com a ordem de seu patrão, porém não se importou muito e bateu na própria face com grande violêcia. Para quem estava prestes a comer a si mesmo em um sanduíche, aquilo não era nada. Contudo, após o impacto, sentiu algo diferente, uma espécie de tremor lhe acometera as vísceras e, de uma hora pra outra, Mohamed tornou-se dietético.

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Toda aquela fome exigia que o recheio de seu sanduíche fosse pleno no que diz respeito à gorduras e calorias, coisa que não iria acontecer dada a sua nova condição. Foi então que tomado por uma fúria irracional, Mohamed atacou seu patrão com um sapato de bebê que sempre trazia no bolso e o golpeou até a morte.

Mohamed observou o corpo de seu patrão, prostrado em sua frente, e teve uma visão perturbadora: Mohamed pôde atestar que as vísceras de seu patrão eram ifinitamente melhores que as suas para a produção de serragem. Ele via cada detalhe praticamente lhe gritar tal descoberta, não poderia sequer contestar.  Estava então comprovado, sua vida não teria mais sentido.


ELEOTÉRIO, O BÁRBARO ADUANEIRO

fevereiro 19, 2009

E Eleotério pulou no mar de notas fiscais obstinado a descobrir qual seria o desfecho da dramática situação que impedia que sua vida voltasse ao que era antes. Tudo o que Eleotério conseguia vestir eram roupas feitas de papel de jornal e coladas com fita durex.

Sua estranha doença havia sido um reboliço na comunidade médica. Todos acreditavam tratar-se de algo da ordem das engrenagens pélvicas medianas ou mesmo de sua lubrificação. Porém nada nos exames extensivos feitos no pobre garoto pareciam confirmar tal teoria.

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Cinqüenta anos atrás, Eleotério havia se inscrito em uma aula de dança de salão pois achava que seu rebolado não era requebrado o bastante, porém o endereço que o deram da escola na verdade o levou para uma arena sangrenta aonde advogados tributaristas se degladeavam até a morte com cachorros-quentes de ferro.

O garoto que apenas queria aprender a remexer o esqueleto acabou tendo que aprender, de forma dolorosa, a destroçá-lo com impactos fulminantes de seu sanduíche marcial. Os anos o tornaram um homem rústico e bruto. Eleotério não mais sonhava com o amor de uma mulher, mas sim com sua própria sobrevivência.

Com o tempo, ele se tornou o campeão absoluto, tornando a luta com grandes hot-dogs metálicos, o esporte nacional de todo o planeta. Advogados do mundo inteiro tinham calafrios de imaginar-se na arena com Eleotério, e todos sonhavam em derrotá-lo embora com o tempo aprenderam a conformar-se com o segundo lugar nos campeonatos.

Eleotério também aprendeu a forjar suas próprias armas, até que um dia teve a idéia de substituir o tradicional hot-dog de ferro por um suflé de brócolis com espinafre feito de aço. A idéia foi inusitada e seu resultado, aterrador. Na primeira luta, Eleotério partiu o impiedoso Juiz do tribunal de pequenas causas de Israelândia em dois com apenas um golpe.

Senhoras de todo o mundo, bestificadas com a violência do esporte organizaram manifestações contra tal prática, porém sua popularidade fez com que seu clamor fosse simplesmente ignorado.

Não contentes com a situação, resolveram então apelar para a feitiçaria. Duas mil e quatrocentas vacas leiteiras e um guaxinim foram sacrificados em um ritual de magia negra para que uma horrível maldição caísse sobre o grande campeão mundial.

Dito e feito, na tarde de 30 de setembro de dois mil e oito, Eleotério se viu incapaz de vestir suas roupas e calçar seus sapatos. Por mais que tentasse, um pensamento intrusivo o levava a cortar jornais em forma de roupas e antes mesmo que pudesse entender o que fazia, já estava vestido com trajes feitos apenas com as edições do dia do caderno de esportes do diário da manhã.

O rapaz entrou em pânico, não tinha coragem de se deixar ser visto em tais condições. O que diriam as pessoas de tais estranhos hábitos? Humilhação pública? Não, uma infância inteira usando um colete ortopédico com luzes de natal e um sino pendurado era toda a humilhação que Eleotério poderia agüentar.

Ele tentou a medicina, mas a ciência convencional parecia completamente ineficaz com relação à sua estranha condição. Nem mesmo os maiores terapeutas ocupacionais com pós-doutorado em musicoterapia da respiração pareciam saber qual seriam os princípios de tal morbidez oculta. Foi então que um dia, ao ir ao supermercado, Eleotério deparou-se com um grande sábio que vivia na sessão de dietéticos.

O sábio era dotado de grandes conhecimentos do oculto. Ele contou ao nosso herói que a cura para tal maldição era um caminho árduo. Havia uma flor que nascia em uma longíqua ilha no mar de notas fiscais cujo suco bebido em um copo de papel feito das palavras cruzadas do jornal de domingo era o único remédio.

Eleotério preparou seis sanduíches de pepino para cada dia, calculando que sua jornada completa demoraria dez dias, o que totalizou sessenta sanduíches. Ele os colocou em uma sacola feita com material reciclado e destemidamente, saltou no mar de notas fiscais para travar uma batalha contra seu próprio destino.

Porém ao pular, bateu a cabeça em uma pedra de basalto e veio à óbito.

Eleotério Absorto dos Prazeres
1980-2008

fim.


PEDOFILIA É CRIME PRO MEU BEM

fevereiro 19, 2009

O fato de manter relações sexuais com uma criança é algo que, sob os moldes do capitalismo ruralista de outro planeta, seria perfeitamente anacrônico uma vez que manter um nexo temporal na história é um ato muito simples, levando em conta que sejamos todos humanos e moremos nesta dimensão. Já os sujeitos de tal análise em questão não contam com tais benefícios, mas sim com grandes máquinas motorizadas capazes de esticar monastérios inteiros com o simples verter de suas vontades.

Houve quem questionasse que máquinas não manifestam vontade de qualquer tipo, porém o anacronismo todo aqui enfocado seria ainda mais austero se não fosse construído sobre a solidez gelatinosa da mulher que mora ao lado, e eu lhes asseguro, ela de fato mora ao lado!

Então naqueles momentos quando for indagado se tudo o que dissemos e tudo o que vivemos foi, de fato, verdade e não um construto de nossas imaginações, sabemos sempre poder contar com Harry, o timoneiro e sua colossal lista telefônica.